Tenho dez minutos de net aqui antes da minha próxima aluna chegar então vou tentar narrar um fato corete da minha vida, que é um blog aberto como vocês sabem.
Domingo eu tinha que ir pra casa do meu irmão pruma festinha de aniversário do meu subrim. Festa de aniversário o escambal. Ele já havia ganhado uma festa na escolinha durante a sexta. A festa de sábado era a festa dos pais e amigos dos pais. Pretextos pra festejar são sempre bem vindos.
Fazia muito tempo que eu não caminhava pelo meu bairro.
Pra quem não sabe, acho que nenhum de meus amigos me conheciam quando eu morava num buraco. Acho que só o Rodrigo e o Cabral que devem lembrar.
A minha rua não era calçada, ali era um tremendo buracão. Da minha casa pra baixo era só matagal e vários buracos.
Havia um buraco famoso no bairro chamado "Cu do Mané". Diziam a lenda que o Mané era dono de todas aquelas terras, mas um pacto com o demonio lhe fez perder metade (a parte esburacada) e o buraco tinha forma de cu pq ele morreu de bruços.
Lembrei de quando eu era a criança chata que ia atrás dos amigos do irmão, apanhava no meio do caminho e voltava pra casa chorando.
Lembrei do dia que eles combinaram de explorar o mato a noite, com umas lamparinas improvisadas e eu fui atrás. O dono do lote, um tal de Serafim (me veio a música na cabeça agora: "Serafim tinha uma gaita/a gaita de Serrafim/todo dia sua mãe falava/toca a gaita Serafim", ta fora do ritmo, se alguém quiser eu canto depois) passou um susto na gente com uma cabeça de boi, nunca vi tanto neguinho correr no escuro.
Sim, eu tive uma infância alucinante.
Voltando.
Aquele pasto era nosso Templo Sagrado. A gente nunca cansava de brincar de siga o líder nos buracos, escalar os barrancos, pular dum ladro pro outro. Sem contar as bases que a gente escavava e fazia de gruta/cabana.
Quando chovia muito, os buracos viravam verdadeiros lagos de lama, que a gente adorava nadar/pegar micose.
Um dia a urbanização chegou e acabou com nosso sonho. Mas até que foi divertido. Nunca faltava montes de areias/terra pra gente subir. Lembro qdo fizeram os buracos pra canalizar o local. A gente descia apostando corrida por entre os buracos em forma de cobra, era muito alucinante.
Tinhas as horas que a gente ficava debaixo do caminhão antes dele jogar terra, só pra ser arrastado por um tsunami de terra, era legal demais.
Começaram a construir casas, não faltava lugar pra gente brincar de pique esconde e polícia e ladrão.
Terminaram de construir as casas, pessoas foram mudando pra elas, e o sonho acabou.
Nessa época, não sei pq, eu me tranquei pra este mundo. Comecei a conviver só com outras pessoas, nem sei quem são meus vizinhos e os mesmos assustam quando minha mãe fala que tem um filho morando lá.
Quando eu olhava pela janela do meu quarto, as raras vezes, sempre tinha uma casa nova, erguida e com sinais de vida.
Mas domingo passado eu resolvi passear por lá. Tirei um tempo pra caminhar por elas, já que são caminho pra casa do meu irmão. Fiquei observando casa por casa e vendo o tanto que a qualidade de vida no bairro é boa. Já está até começando a surgir um comercio. E o legal que minha casa é vistosa de todos os lugares do bairro (e eu ainda fico andando pelado no quarto depois de sair do banheiro e com a janela aberta, preciso aprender a vestir pelo menos a cueca dentro do banheiro).
Fui subindo o morro até que uma hora não havia mais iluminação. Pensei "conheço este caminho de cabo a rabo, posso passar no escuro". Mas o breu era demais. Não tava enxergando nada. Voltar, ia ser perder tipo uns vinte minutos de caminhada + vinte pra ir por outro caminho. Não ia desistir. Lembrei da roça do Dança, da gente fugindo dos sustos do verde. Tava tocando uma música bem dark no meu celular, fiquei com mais medo ainda, mas continuava andando.
Lembrei dum Haikai sobre o Santa Cruz (bairro que eu estava chegando)
Santa Cruz
De dia falta água
De noite falta luz
Ri, e segui em frente. Até achar três quase usuários de Crack. Um deles já me abordou de longe "rapaz, vem aqui".
Pensei: Adeus celular, se der sorte saio com vida.
Nem tinha como eu correr pq eu nao conhecia aquelas vias escuras.
Aproximei e o cara pediu pra eu iluminar com meu celular a latinha pra ele pq ele nao dava conta de furar.
Tentei iluminar mas eles não conseguiram furar.
Ae eles perguntaram se eu me importava deles fumarem ali.
Falei que não e talz.
Ae segui viagem, mas eles foram me seguindo, falaram que iam mudar de esconderijo, já que foram descobertos por mim.
Aumentei o passo e finalmente vi a luz do Santa Cruz.
Não morri.
Já se passaram os dez minutos então vou pra moral da história:
O local que guardava memórias infinitas da minha infância é hoje um abrigo pra viciados em crack.
Queria comentar sobre a Codirc, mas fica pra próxima.
1 comentários:
que isso cara, esse post foi doido demais
falando nesses trotes do verde, teve um lá que eu nunca vou esquecer na minha vida
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